Tibau do Sul e Lagoa de Guaraíras

Depois de passar uns dias no distrito de Pipa, seguimos na direção norte do estado, para Tibau do Sul. Lá, na praia de mesmo nome, a Lagoa de Guaraíras encontra o mar, formando não só uma paisagem linda, mas com uma história bem interessante.

Guaraíras, na verdade, é uma laguna, uma vez que lagoas não têm contato com o mar. Acontece que há registros de que ela já foi mesmo uma lagoa e desde que Tibau começou a ser registrado em mapas, no século XVI, mais de uma vez mudou de forma. Em uma delas, holandeses tinham feito um canal para a passagem de grandes embarcações, que ficou esquecido depois da retomada do lugar pelos portugueses, e foi bloqueado por dunas de areia por quase 300 anos.

A última vez em que Guaraíras se abriu para o oceano foi em 1924, depois de uma cheia terrível que destruiu o povoado de Tibau. Novamente, a ação humana foi determinante. Para drenar a água de canaviais alagados, senhores de engenho começaram, um ano antes da enchente, a abertura de um canal, que não resistiu à força das chuvas e rompeu, dando à lagoa o aspecto que tem hoje. [Veja mais sobre essa história aqui.]

Apesar de aparecer como laguna em trabalhos acadêmicos e sites de viagem estrangeiros, a forma mais comumente usada pela população local é lagoa, por isso é esse o termo que uso aqui.

A principal atração de Tibau do Sul é justamente o passeio de barco na Lagoa de Guaraíras, cujo roteiro inclui parada para ver golfinhos, banho de lama no manguezal e descida em um banco de areia que emerge das águas quando a maré baixa. À propósito, existem horários específicos para fazer essa viagem, por isso nós fomos primeiro para ela, ao invés de ir direto para a praia.

Esse é um passeio relativamente tranquilo de ser feito com bebês, a não ser pelos seguintes motivos : 1) Eles podem sentir medo. Aimée ficou assustada assim que entramos na lancha e grudou em mim durante todo o passeio. 2) Havia coletes salva-vidas, mas nenhum para alguém de 1 ano e 3 meses. 3) Depois de ter sido muito rápido em nos oferecer o passeio, o funcionário da empresa que oferece a programação recuou quando viu Aimée e disse que a Marinha proibia viagens de crianças menores de 2 anos pela costa.

Não encontrei nenhum regulamento ou legislação a respeito disso, mas é óbvio que as empresas têm receio de, em caso de acidente, serem responsabilizadas por carregar passageiros sem equipamento adequado. Porém, ao que parece não existe uma norma de segurança muito apropriada para viagem com os menores em qualquer outro meio de transporte além do carro e mesmo os ultra seguros aviões deixam muito a desejar nesse quesito. [Leia mais sobre isso no texto “Todos estão seguros, menos os bebês”, do pediatra Daniel Becker aqui].

O fato é que pessoas-com-bebês existem e seguem suas vidas (quase) normalmente, locomovendo-se pelo ar, pela terra e pela água, seja por necessidade, seja por diversão. E é claro que elas querem fazer isso sem sentir que estão colocando em risco a vida de suas crias.

Pensar a respeito fez com que eu me sentisse mal no início do passeio, ainda mais com Aimée assustada e agarrada em mim. Pois é… viajar com bebê tem dessas. Mas no fim, tudo correu bem e nós nos divertimos. O trajeto é curto e a descida para o manguezal e a prainha são bem seguras.

A primeira parada é pertinho da praia, para ver golfinhos. Acontece que “ver” aqui pode significar qualquer coisa, inclusive nada. Não dá para ir achando que vai encontrar um espetáculo a la SeaWorld; os bichinhos na natureza não são treinados para divertir a gente.

Portanto, contente-se em parar no meio da lagoa, ficar à espreita e levar um susto ao avistar uma barbatana deslizando sobre a água aqui e ali. Mesmo de longe e mostrando apenas o dorso, dá para ver que eles são maiores do que a gente imagina e apesar do nosso coração infantil esperar por um golfinho acrobata, se for pensar bem, é melhor que eles fiquem só de boa na lagoa mesmo.

A segunda parada é no manguezal. O piloto nos deixa lá contando sobre os benefícios do banho de lama para a saúde. Tudo bem, as pessoas gastam vários reais com cremes faciais, corporais e capilares de lama e argila, mas nenhuma das vantagens que dizem a respeito me animaram a rolar no mangue. Quem sabe no dia em que eu tiver reumatismo… Brincadeiras à parte, as crianças (e os adultos) se divertem e é isso que importa. As fotos também são ótimas, acho até que elas são a principal razão do banho de lama.

É interessante observar que o mangue é um ecossistema de transição: do ambiente aquático para o terrestre e do encontro da água do rio com o mar, portanto de água salgada ou salobra; já uma lagoa possui água doce. Então, quando Guaraíras era de fato uma lagoa, não havia manguezal nem a fauna e a flora características desse ecossistema.

O mangue é rico em biodiversidade e se constitui como berço de diversas espécies. Na verdade, grande parte do alimento proveniente da pesca é produzido no mangue. Além disso, comunidades tradicionais mantém uma relação intrínseca com esse ecossistema. [Veja o filme Mulheres do Mangue, produzido em parceria com nosso coletivo Co.inspiração Amazônica, aqui].

Agora pare e pense que toda a paisagem seria diferente se a Lagoa não fosse uma laguna.

A última parada é num banco de areia da Lagoa. A prainha que se forma é boa para mergulhar e a vista é bem bonita. Nós percebemos que a maré ia subindo bem rápido, por isso é importante chegar cedo para fazer o passeio, senão a visita a essa praia fica comprometida.

Lá tem barraquinhas que vendem comida e bebida e algumas cadeiras e mesas, mas quase nenhuma proteção contra o sol, o que foi bastante inconveniente, porque já era bem tarde. Nós acabamos voltando antes do fim da estadia na prainha (cerca de 40 minutos), mas achamos que foi o suficiente.

Depois da Lagoa de Guaraíras e do almoço, fomos caminhar pela praia de Tibau do Sul, que é muito bonita, com barreira de pedras e formação de piscinas naturais.

A vantagem dessa praia é que não é preciso descer falésias íngremes para chegar até ela. E apesar do ditado que diz que quanto mais difícil é a subida, melhor é a vista, Tibau do Sul, tão fácil de chegar, é sim uma praia que vale a pena ver.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você gostou de conhecer um pouco sobre Tibau do Sul e a Lagoa de Guaraíras, leia também as outras partes dessa viagem:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Pipa

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Barra do Cunhaú


					

Pipa

O Rio Grande do Norte tem alguns dos lugares mais lindos em que eu já estive.

As praias são maravilhosas, geralmente circundadas por falésias, grandes encostas formadas por camadas sedimentares que tornam a paisagem vista de cima algo de tirar o fôlego.

No município de Tibau do Sul, a 80 km da capital, fica o distrito de Pipa. Na verdade, Pipa é uma praia que recebeu esse nome ainda no século XVI por conta de uma pedra com formato de um tonel, recipiente cilíndrico usado para conservar bebidas como o vinho. Essa pedra, obviamente, ainda está lá e realmente lembra um barril.

Na época da colonização os europeus extraíam da região o pau-brasil e dominaram de tal forma o lugar que seu primeiro nome foi Oratapipy, do tupi “aldeia do homem branco”. Durante séculos a região foi pouco conhecida e explorada pelos brasileiros. Até que por volta de 1970 os surfistas descobriram suas praias e o que então era uma tradicional vila de pescadores, agricultores e artesãos de renda de bilro, cestos de palha e redes de pesca, se tornou um balneário cosmopolita e fervilhante.

Praia do Amor

A Praia do Amor é uma das mais bonitas do estado e a nossa preferida em Pipa. Tem uma bela visão panorâmica na descida para a praia, que é bastante extensa e de areia branca. O mar é agitado e tem ondas grandes, portanto é ótima para quem quer surfar, o que não significa que seja ruim para tomar banho. Quem não quer encarar as ondas pode procurar pelas enseadas da praia, reentrâncias onde a água chega macia, deixando o jorro quebrar lá fora.

Mesmo nos fins de semana, a praia é livre do excesso de gente e da poluição sonora, o que a torna excelente para passeios com bebês e crianças, que podem ficar bem à vontade brincando na areia e na beiradinha do mar.

O único inconveniente é a descida para a praia. Quem anda com bebê sabe que o céu é o limite para o tanto de coisas que a gente carrega. Descer as escadas íngremes das falésias com bebê e infinitos bagulhos não é uma boa ideia. Subi-las, depois de um dia exaustivo de sol e mar, menos ainda. Então o ideal é levar apenas o essencial e deixar a bagulhada baby [piscininha, cadeirinha, etc] para outra ocasião.

Algo que vale muito a pena é caminhar no final da tarde pela Praia do Amor e aproveitar para ver o pôr do sol. Além da paisagem linda, o lugar é cheio de pontos legais para fotografar: arte ao ar livre, tendas que oferecem aulas de surf, enseadas circundadas por pedras, falésias ao fundo, vista panorâmica e vegetação rica.

Praia da Pipa

A Praia da Pipa é menor em extensão de areia, tem ondas medianas e é bem mais movimentada que a Praia do Amor. É a praia central, o que é fácil de entender, afinal o distrito cresceu no entorno dela. Não é das mais tranquilas, o que não significa, porém, que o passeio não valha a pena. Recomendo muito uma ida ao final da tarde, para ver o pôr do sol que é lindo de lá.

Noite em Pipa

Andar por Pipa à noite é muito legal. A vila é toda luzes, cores, cheiros, pessoas e múltiplos idiomas. Mas o melhor para mim é, como sempre, comer. Especialmente se você está com bebê e não restam muitas opções de diversão noturna.

Um dos restaurantes que gostamos muito foi a pizzaria argentina A lo Morón, que serve uma pizza de massa mais grossa e bem simples, mas deliciosa. Nós pedimos os sabores napolitano e calabresa e ambos estavam excelentes. Infelizmente, não provamos as empanadas, outro prato da casa. O ambiente é super agradável, tem uma vista legal e o atendimento é ótimo, as argentinas são muito queridas.

Outro restaurante de argentinos que adoramos foi o De boca em boca, que serve massas artesanais. Os pratos são individuais e muito saborosos. Embora saia um pouco caro para uma família grande jantar, o valor em si é justo, pois se trata de uma massa feita na hora, com molho caseiro e suave. O local é pequenino e aconchegante e o atendimento é bastante gentil e acolhedor, tal qual uma visita na casa de novos amigos.

Nós também temos de lá uma lembrança muito especial; foi a primeira vez que Aimée disse o significado do nome dela em francês: “a amada”. Isso porque ela costuma fazer sucesso onde chega e no meio daquelas perguntas típicas “que idade ela tem?, qual o nome dela?” acabamos descobrindo que Aimée também existe em mapuche e significa “enviada do céu”. Por um acaso, a moça que nos atendeu [se não me engano o nome dela é Ayelén, que significa “sorriso” em mapuche], tem uma melhor amiga chamada Aimée.

Pipa é um lugar maravilhoso, que dá vontade de ficar para sempre. Nós curtimos muito e temos vontade de voltar outras muitas vezes para viver o que não vimos e rever o que já vivemos. 🙂

Nessa viagem, porém, decidimos conhecer outras praias das redondezas. Seguimos para Barra do Cunhaú via Estrada das Falésias, que diga-se de passagem, é uma atração imperdível, e depois para a Praia de Tibau do Sul, onde fizemos um passeio pela Lagoa dos Guaraíras.

Fotografia: Alexandra Duarte e Evandro Medeiros

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Se você curtiu conhecer um pouco desse lugar incrível, veja o restante dessa viagem:

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Praia de Tibau do Sul Lagoa de Guaraíras 

Viajando com bebê: Rio Grande do Norte – Barra do Cunhaú