“Mamãe, você viu meu fóssil?”, disse Aimée, me mostrando os restos de um calango que ela encontrou no nosso quintal. Esse pequeno tesouro, provavelmente um presente deixado pelos nossos gatos, virou uma hora de brincadeira, perguntas, curiosidades. Primeiro foi descoberto o crânio, depois as vértebras e por último a pele. Umas coisinhas diminutas e frágeis, quase insignificantes pra gente, mas uma descoberta incrível pra ela.
Eu poderia dizer que Aimée é uma pesquisadora nata, mas eu sei que essa alegria de saber é característica essencial da infância, que a maioria das pessoas perde quando se torna adulta. A não ser que a gente seja um pouco Manuel de Barros: “[…] Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. […] Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios.”
Em tempos normais é difícil mensurar o quanto aquilo que fazemos com nossos filhos impacta no desenvolvimento deles. É notório que o tempo de qualidade juntos, os momentos de leitura, os passeios ao ar livre e as atividades manuais são coisas que contribuem para desenvolver habilidades cognitivas, emocionais e sociais.
No entanto, a criança vai para a escola, se relaciona com outras pessoas e a aquisição de novas habilidades acontece sem que a gente pense em que lugar, com quem e em que medida cada atividade influenciou nesse processo.
Apesar de termos ficado em casa durante os 2 primeiros anos de vida da Aimée, nunca estivemos confinados como estamos nesse isolamento por pandemia, e os mais de 5 meses de quarentena acabaram servindo como um laboratório.
Como eu mostrei em uma outra publicação, nós fizemos muita atividade manual durante esse tempo em casa. De fato, sempre gostamos e estimulamos brincar com tinta, massinha, papel e afins, por serem coisas divertidas, que as crianças amam, e que favorecem a atenção, a concentração, a criatividade, as habilidades motoras e tantas outras coisas que contribuem para o desenvolvimento delas. Nessa quarentena, também tem sido uma forma de aliviar a tensão de todos em casa, além de evitar tempo excessivo na frente das telas.
Justamente pelo hábito em fazer essas atividades, eu fiquei admirada quando vi Aimée criar sozinha uma colagem, uma cena náutica (rs), usando papel, tesoura e cola. Eu vi e registrei o momento em que a minha criança deu um salto no desenvolvimento e isso foi fantástico, algo que talvez em tempos normais eu não tivesse a oportunidade de observar.
Primeiro ela me pediu papel e tesoura para brincar e eu reuni os materiais de sempre: papel branco, papeis coloridos, tesoura, cola, furador… então ela começou a cortar e me disse que faria um barco. Como costuma acontecer com crianças pequenas, primeiro ela cortou um papel azul e depois, vendo a forma que ele tomou, decidiu que faria o mar (não mais o barco).
Com 3 anos de idade as crianças ainda não tem plenamente desenvolvida a capacidade de premeditação. Isso significa, por exemplo, que elas desenham seus rabiscos e, ao observar a forma que tomam, decidem o que é. Ou então dizem que vão desenhar um gato e, terminado o desenho, percebem que se parece um pássaro e decidem que é um pássaro – “esquecendo” que a ideia inicial era desenhar um gato.
Crianças maiores conseguem planejar algo e executar em seguida, enquanto as menores vão elaborando conforme fazem: elas pensam conforme fazem – nem o “pensar” e o “fazer” estão separados, nem o pensar vem antes do fazer!
Esse é o motivo da minha fascinação: depois do momento inicial decidindo que aquela forma era uma onda, Aimée começou a montar toda a colagem baseada numa ideia prévia, cortou mais papeis azuis, até formar todo o mar, e em seguida decidiu que faria um barco e um pirata para completar o cenário.
Por último, ela me impressionou ao escolher o modo como faria as velas do barco. Eu sugeri cortar a ponta de um papel, para fazer um triângulo, acreditando que ela simplesmente o colaria como se fosse uma vela, mas não. Ela me pediu palitos de churrasco, pediu que eu quebrasse uns pedaços e só depois colou no papel. Em seguida dobrou os triângulos no meio, com o palito dentro.
Ela também pediu olhinhos autocolantes e ajuda para fazer o chapéu do pirata. Tudo isso deixou claro para mim a consciência e atenção plena da Aimée na atividade que ela ia desenvolvendo.
A despeito do fato de ser a mãe, me fascinou a capacidade da Aimée em planejar e executar, do início ao fim, algo dessa complexidade, uma paisagem cheia de elementos, usando algumas técnicas mais sofisticadas do que o (não tão) simples cortar e colar papel. Escolher palitos de churrasco para criar uma vela de barco, por exemplo, é uma demonstração de desenvolvimento da flexibilidade cognitiva, a capacidade de transformar uma coisa em outra, de relacionar coisas, de criar.
Também me surpreenderam suas habilidades motoras finas ao cortar com a tesoura e colar coisinhas pequenas, o cuidado com os materiais, a concentração e a criatividade.
E fiquei pensando no quanto todos aqueles dias em que o pai ou eu ficamos fazendo colagens e recortes com papel e rolo de papel higiênico, e criando bichinhos a partir daquilo, tinham contribuído para o desenvolvimento dessas novas habilidades – que são normais para crianças dessa idade, mas não são naturais, ou seja, não vão aparecer por simples maturidade fisiológica; devem ser aprendidas, na medida em que são estimuladas.
Com paciência e dedicação, com tempo junto de qualidade, com respeito e afeto à criança, com muitas brincadeiras e mais leveza no nosso dia a dia, a gente contribui muito para um desenvolvimento saudável dos nossos filhos, mesmo que não dê pra mensurar e observar como num laboratório – e nem precisa.
Como eu tenho estudado neurociência na minha pós-graduação em educação, foi muito legal identificar que processos cognitivos estão envolvidos nesse salto de desenvolvimento da Aimée. Esse vai ser tema de uma próxima publicação na categoria Desenvolvimento infantil aqui no meu blog. Inté lá! 🙂
Eu adoro trabalho manual. Minha infância ficou marcada, entre outras memórias, pelas tardes inteiras que eu passava criando arte – tem até uma piada na família, do dia em que eu estraguei uma fita da banda Kraftwerk pra fazer decoração de carnaval. 😀
Piadas e prejuízos à parte, esse tipo de atividade é excelente para o desenvolvimento das crianças e nesses dias de isolamento social por conta da pandemia de Covid-19, fazer trabalhos manuais tem ajudado a aliviar o estresse e a angústia, uma vez que criar, cortar, colar, ocupa o tempo de tal forma que esquecemos de tudo, do mundo e de suas notícias.
Manter a concentração na construção de algo é estimulante, divertido e inspirador. Também é terapêutico e é como uma meditação, uma pausa, um tempo lento que nos leva a olhar para dentro…
Além disso, é um passatempo analógico, reduz o tempo na frente das telas, que se torna tão maior quando estamos confinados em casa, e diminui a ansiedade que provém desse excesso. É bom para adultos e crianças.
Reuni 10 dos melhores crafts que fizemos em casa durante essa quarentena, para inspirar quem quiser começar a fazer também:
Turminha do jardim
Usando rolo de papel higiênico e a imaginação, dá para fazer absolutamente qualquer bichinho que você quiser. E dá para fazer o mesmo bicho de formas diferentes, o que muda é a dificuldade da técnica e o quão incrementado ele vai ser.
A gente fez essa “turminha” (como diz a Aimée) usando técnicas muito fáceis, materiais bem acessíveis e eles ficaram lindos:
Abelhinha fofa
Essa abelhinha foi feita usando apenas:
1) um rolo de papel higiênico;
2) alguns recortes de papel Canson colorido (amarelo e preto);
3) um pedaço de papel branco reaproveitado de embalagem (mais resistente);
4) papel kraft, para fazer o rostinho;
5) canetinha preta;
6) tesoura e cola.
Não tem segredo nenhum, a não ser cortar os papeis nos tamanhos adequados, à mão livre mesmo, já que são formas super fáceis de serem recortadas, colar e brincar!
Coelhinho minimalista
Outro bichinho super fácil de fazer é esse coelho.
Aqui usamos:
1) rolo de papel higiênico;
2) folhas de papel reciclado num tom de azul bem leve, mas também dá pra usar tinta guache pra pintar;
3) sobras de papel Canson preto para fazer os bigodes;
4) olhinhos autocolantes vendidos (numa cartela com vários) em qualquer papelaria, mas também dá pra fazer os olhos usando papel branco e preto;
5) pompom cor de rosa;
6) tesoura e cola.
Borboleta fashionista
Outra ideia facílima é a borboleta. Nós usamos:
1) rolo de papel higiênico;
2) papel colorido (rosa e amarelo) de um caderno velho que eu tinha em casa;
3) E.V.A. glitter, reaproveitado de uma tiara de carnaval, para fazer as asas e as antenas;
4) olhinhos autocolantes;
5) pompom cor de rosa para o nariz;
6) tesoura e cola e
… voilà!
Para colar as asas, sugerimos fazer cortes nas laterais do rolo e então encaixá-las e fixá-las com cola de isopor.
Mas enquanto lá o corpo é feito de dobradura de cartolina, aqui usamos um material abundante e acessível: o rolo de papel higiênico! hahaha
O que dá essa característica engraçada e estranha nessa família é o formato dos narizes e das orelhas.
Para fazê-los, basta pegar um recorte de papel e dobrar três vezes para dentro. Ele vai formar um triângulo, como se fosse uma barraca. Corte o excesso, deixando no tamanho adequado, e está pronto.
Tal como nos bichinhos, nós usamos rolo de papel higiênico, recortes de papel Canson colorido (amarelo, azul, marrom e preto), olhos autocolantes e o E.V.A glitter reaproveitado da tiara de carnaval, com o qual fizemos os acessórios das bonecas.
Para fazer os cabelos, é preciso deitar o rolo num pedaço de papel e então contornar com a forma desejada. Depois recortar e colar no rolo.
Para os lábios de batom, usamos cola colorida.
Eu achei que essa família ficou bem anos 80! 😀
Tá tudo meio amassadinho e manchado de tinta porque aqui é craft com criança real, não é só cenário pra foto! Hahaha
Senhor Ratinho
Esse foi o primeiro bichinho de rolo de papel higiênico que fizemos na quarentena e foi o que a Aimée trabalhou mais livremente, pintando do jeito dela.
Aqui foram usados somente rolos de papel para montar a estrutura: um para fazer o corpo e o outro para recortar as partes do ratinho: orelhas, pés, braços, nariz e rabo.
Foi tudo feito à mão livre, sem molde, portanto não tem mistério nenhum para fazer, é só seguir as formas, sem se preocupar com perfeição.
Para colar as orelhas, o nariz e o braço, o ideal é usar uma cola bem forte, porque a cola comum não segura bem esse tipo de papel. Aqui usamos cola de isopor.
Os pés e o rabo do ratinho são encaixados com cortes feitos no rolo de papel e depois colados por dentro para fixar melhor e não correr o risco de cair.
Fora isso, só tinta para pintar e os olhinhos autocolantes – que devem ser colados de um lado só, senão fica esquisito, uma vez que o nariz do ratinho é muito grande.
Um macaquinho simpático
Esse macaquinho sorridente, com rabo para cima e acenando é um dos mais fofinhos que a gente fez.
Nós usamos:
1) Papel Canson colorido (marrom, amarelo, preto)
2) recorte de embalagem branca (para os olhos)
3) papelão para fazer o corpo
4) rolo de papel higiênico para fazer o suporte do macaquinho
5) tesoura, cola e canetinha.
Faça os moldes dos braços, rabo e orelhas, recorte e cole por trás do papelão.
Depois faça os olhos, boca e barriga e cole na frente.
Por último, cole o rolo de papel por trás do macaco, assim ele fica em pé e facilita na hora da criança brincar.
Família de Gatinhos
De todos os crafts, a família de gatinhos é a minha preferida.
Eles ficam tão lindos que parece que foram feitos para existir no papelão!
Para criar os filhotes, desenhe em um papelão o formato dos gatinhos, tal como na imagem acima. Depois faça um corte, da largura de um dedo e bem no meio do corpo, dobrando em seguida essa parte cortada para trás. Com isso, cria-se o formato das pernas e um suporte para manter os gatos em pé. O barbante enrolado no corpo deles dá um charme.
Por último, seguindo os passos abaixo, dá para fazer o gato maior e de quebra, um porta-lápis de gatinho!
Porta-lápis de gatinho
Para fazer o porta-lápis de gatinho:
1) recorte moldes como os da imagem abaixo:
2) cole a cabeça na frente do corpo e as orelhas e o rabo na parte de trás da cabeça e do corpo, respectivamente;
3) use recortes de papel preto, branco e rosa para fazer os bigodes, o nariz e os olhos;
4) cole as pernas deixando pouco menos de um dedo para fora do corpo e dobre essa parte para cima com o auxílio de um palito de picolé (isso vai servir para colar a base);
5) cole o rolo de papel higiênico nas costas do gato;
6) passe cola nos pés do gato, para então poder colar a base. Não esqueça de pressionar os pés na base por um minutinho, para fixar bem.
Pronto. Depois é só esperar secar e colocar os lápis dentro do rolo.
Se você curtiu, deixe um comentário, esclareça uma dúvida ou faça uma sugestão! Novos crafts ainda vêm por aí…
Sempre achei fascinante como Graciliano Ramos, em Vidas Secas, conseguiu colocar na secura da palavra a vida de escassez das personagens e construiu com densidade emoções e sensações expressas numa língua parca, às vezes composta por resmungos e gestos.
Não é por acaso que seja assim, o pensamento organizado é resultado da elaboração da linguagem: quanto mais complexa ela é, mais bem construída é a expressão do pensamento.
Quando comparamos essa representação literária com a noção de que temos dois nascimentos, um biológico e outro psíquico, isso se torna particularmente interessante. Nosso nascimento psíquico é simbolicamente representado pela linguagem e é com ela que nasce o sujeito.
A fala se desenvolve com a escuta, que não é passiva. Os bebês têm uma sensibilidade muito grande à voz humana e quando ouvem tentam construir significados. Conversar com bebês, algo que fazemos intuitivamente, desconsiderando a ausência de respostas diretas, é crucial para o seu desenvolvimento.
É nesse sentido de construção de significados que a literatura assume um papel importante na formação do sujeito, pois embora o vocabulário varie com cada família, a fala do dia a dia é geralmente pobre, composta basicamente pelo imediato da vida cotidiana. A literatura, por outro lado, traz uma riqueza não apenas de palavras, mas de maneiras distintas de expressar sentimentos, ver e viver o mundo.
Desse modo, costumam surgir diferenças entre o desenvolvimento de crianças que têm contato com múltiplas formas narrativas, com sua diversidade poética e literária, capaz de promover um capital psicológico e cultural mais amplo, e aquelas de famílias nas quais impera a língua do dia a dia, com tensões pouco elaboradas.
Cabe aqui abrir um parênteses a respeito de indivíduos não alfabetizados e povos de cultura oral, uma vez que não se trata de dizer que a ausência da escrita significa ausência da capacidade de reflexão e desenvolvimento da autonomia.
Existem múltiplas formas narrativas e a literatura é apenas uma delas. A tradição oral, de contação de histórias, que passando de geração para geração carrega conhecimento adquirido, cultura e valores, nos mostra isso. No entanto, é preciso considerar o papel da literatura nas sociedades letradas, sobretudo quando a falta de acesso a ela reforça desigualdades sociais.
Países como a França e a Colômbia desenvolvem políticas públicas para incentivar a leitura desde a primeira infância, distribuindo livros infantis gratuitamente para as famílias e fomentando a criação e manutenção de bibliotecas públicas.
Com isso, assumem que diminuir as distâncias sociais não depende apenas de aumentar a renda da população mais pobre, mas contribuir para o acesso aos bens culturais, como a literatura, e promover maior igualdade na formação intelectual dos cidadãos.
Em Vidas Secas, o autor demonstra a dificuldade dos personagens em pensar a si mesmos como sujeitos devido a escassez da linguagem. Mas, além disso, expõe a relação de dominação pela palavra, quando os poderosos agem arbitrariamente com os pobres através do discurso sem que estes consigam se opor, pois pouco podem refletir sobre a opressão ou mesmo expressar o que sentem.
Assim como cuidamos dos bebês dando colo, carinho e boa nutrição, assim como conversamos e cantamos com eles, devemos nos apropriar dos livros como alimento fundamental para o seu desenvolvimento psíquico e social, pois eles não servem apenas como meio para o aprendizado da leitura e da escrita, mas para aprender a ler a si mesmo e o mundo de maneira mais plena. E, com isso, possibilitar a construção de novas e independentes histórias.
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Nas próximas semanas, o blog terá uma série de textos sobre os benefícios da leitura para o desenvolvimento dos bebês e dicas de leitura para cada faixa etária, até os 2 anos.